9 mai - 2013

Criado por | 12 Comentários

A moda que escraviza também mata

A moda que escraviza também mata

Nesta quinta-feira (9), um incêndio em uma fábrica de tecidos em Dhaka, capital de Bangladesh, matou oito pessoas. O número de vítimas só não foi maior porque a maioria dos funcionários já havia ido para a casa na hora que aconteceu a tragédia. Há cerca de seis meses, um incêndio em outra fábrica da cidade, que produzia roupas para a rede americana Walmart, matou 100 trabalhadores. Há duas semanas, no dia 24 de abril, o desabamento de um prédio, que também abrigava confecções, tirou a vida de mais de mil pessoas, gerando ondas de protestos contra as estruturas precárias e péssimas condições de trabalho do setor têxtil de Bangladesh. O prédio que abrigava as confecções tinha entre seus principais clientes a cadeia de lojas britânicas Primark e a grife espanhola Mango.

Bangladesh é o segundo maior exportador mundial de produtos têxteis, perdendo apenas para a China. Os dois países produzem roupas para grifes internacionalmente conhecidas, a preços irrisórios, graças à exploração da mão de obra barata. Muitas fábricas ilegais não cumprem os requisitos mínimos de segurança e ainda contam com a exploração do trabalho infantil. Segundo  dados da NGWF (Bangladesh National Garments Workers Federation), nos últimos 15 anos, 600 pessoas morreram e 3.000 ficaram feridas em acidentes ocorridos em fábricas têxteis, isso sem contar os números das duas últimas tragédias ocorridas no país.

Abraço final

Inúmeras fotos feitas após o desabamento do dia 24 de abril chocaram o mundo mas uma, em especial, conseguiu emocionar ao tornar um fato ocorrido em um país distante, algo próximo e comum a qualquer pessoa. A imagem mostra o lado mais humano do desastre, a dor do sonho interrompido. A foto feita por Taslima Akhter conseguiu ilustrar a comoção de uma nação inteira em apenas um clique. “Passei o dia todo no prédio que desabou, observando como trabalhadores feridos estavam sendo resgatados dos escombros. Lembro-me dos olhos assustados de parentes – Eu estava exausto mentalmente e fisicamente. Cerca de duas horas, eu encontrei um casal se abraçando. As partes inferiores de seus corpos foram enterrados sob o concreto. O sangue dos olhos do homem correram como uma lágrima. Quando eu vi o casal, eu não podia acreditar. Olhei para eles, como ficaram juntos em seus últimos momentos, um tentou salvar o outro – para ambos salvarem a sua amada vida.”

“Toda vez que eu olho para trás e vejo esta foto, eu me sinto desconfortável. É como se eles estivessem dizendo a mim – não somos um número e nem apenas mão-de-obra barata. Somos seres humanos como você. Nossa vida é preciosa como a sua, e os nossos sonhos são preciosos demais.” (Taslima Akhter) Fonte: http://www.ideafixa.com/o-abraco-final/

Escravos da moda

Na segunda quinzena de março, na mesma semana em que ocorreu o evento de moda mais badalado do Brasil, a São Paulo Fashion Week, o ministério do trabalho brasileiro fechou uma confecção em São Paulo onde bolivianos trabalhavam em condições análogas à escravidão. A fábrica vendia  roupas para a Cori, grife que desfilou na SPFW. Na época, o blog A Mulher publicou um posto sobre o assunto. Em uma entrevista concedida à TV Folha, a consultora de moda Gloria Kalil deixa a entender que o elo entre o trabalho escravo e a moda é muito mais comum do que podíamos imaginar, ao declarar “As marcas maiores, de mais evidência, evidentemente que não vão, nem podem dar uma marcada dessas. Só na China, mas na China pode. Pela legislação, pode”.

Todas essas notícias de morte e exploração  alertam para uma necessidade urgente de reflexão sobre nossa relação de consumo e sobre quantas pessoas precisam morrer esmagadas, queimadas, ou viver escravizadas para que possamos comprar uma peça de roupa. Está mais do que na hora da sociedade civil dar um basta nessa situação, já que há muito dinheiro envolvido nisso e as gigantes da moda, por conta própria, não farão nada para mudar o rumo que as coisas tomam.

Libertação

Nesta semana, o governo de Bangladesh, com o intuito de amenizar os ânimos da população, fechou 18 fábricas de roupas no país por motivos de falta de segurança. O acidente que ocorreu em seguida mostra que o problema da falta de condições de trabalho ainda está muito longe de ser resolvido. O que parece é que houve uma tentativa de maquiar a situação para que as fábricas daquele país possam continuar trabalhando com custos reduzidos, produzindo roupas baratas e em grande escala para as grandes marcas mundiais. Essas, por sua vez, sempre se defendem dizendo que fiscalizam seus fornecedores, mas quando as tragédias estouram, fica evidente que a realidade é bem diferente do discurso.

Dentro de alguns dias, algumas empresas poderão assinar um código de segurança que exigirá inspeções independentes nas fábricas têxteis, relatórios públicos sobre as condições das fornecedoras e consertos obrigatórios.  O acordo seria válido inclusive nos tribunais dos países de origem das empresas. Para pressionar as grifes a assinarem o acordo, o site avaaz.org, operado pela Fundação Avaaz, uma associação sem fins lucrativos, está promovendo um abaixo-assinado mundial com a campanha “Roupas sem culpa”. Pode parecer pouco, mas a mobilização popular e o boicote às marcas ainda é a arma mais importante contra os crimes cometidos por um sistema que banaliza vidas em nome do lucro.

Deixe um Comentário